10/08/2026
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Como Scorsese constrói a ascensão e queda de personagens

Como Scorsese constrói a ascensão e queda de personagens

Entre desejo, poder e culpa, Como Scorsese constrói a ascensão e queda de personagens revela por que seus protagonistas parecem tão próximos de nós.

Na prática, poucas coisas prendem tanto a atenção quanto ver alguém comum conquistar espaço, dinheiro e respeito antes de perder tudo diante dos nossos olhos. Já vi muita gente sair de uma sessão comentando apenas a violência dos filmes de Martin Scorsese, mas o ponto mais forte quase sempre está antes dela: o modo como o diretor faz a queda nascer das próprias escolhas do personagem. Em Como Scorsese constrói a ascensão e queda de personagens, não existe uma subida gratuita nem um castigo colocado de fora para dentro. Cada vitória carrega uma dívida, cada gesto de ambição altera a relação com os outros e cada excesso aproxima o protagonista do isolamento. É por isso que Henry Hill, Travis Bickle, Jake LaMotta e Jordan Belfort continuam provocando discussões. Eles não são apenas figuras perigosas ou ambiciosas. São pessoas seduzidas por uma versão de si mesmas que, aos poucos, deixa de estar sob controle.

Como Scorsese constrói a ascensão e queda de personagens pela experiência do desejo

O primeiro movimento de Scorsese costuma ser apresentar um desejo muito claro. Henry Hill quer pertencer ao mundo dos mafiosos em Os Bons Companheiros. Jake LaMotta busca reconhecimento e domínio dentro e fora do ringue em Touro Indomável. Frank Costello, em Os Infiltrados, representa um poder que se alimenta de influência, medo e informação.

Esse desejo não aparece como uma ideia abstrata. Ele se transforma em ações visíveis, hábitos e decisões pequenas. O personagem observa quem tem poder, aprende as regras daquele ambiente e passa a imitar os sinais de sucesso. O público entende a atração porque ela tem uma lógica concreta: dinheiro, respeito, proteção, fama ou a chance de escapar de uma vida limitada.

Pelo que já vi, essa etapa é decisiva para a narrativa funcionar. Se o diretor mostrasse apenas um criminoso ganancioso, um lutador agressivo ou um empresário abusivo, a trajetória ficaria rasa. Scorsese começa pelo impulso que qualquer pessoa consegue reconhecer, mesmo que não aprove os caminhos usados para realizá-lo.

O ambiente oferece um atalho que parece justificável

Os protagonistas raramente sobem sozinhos. Há sempre um grupo, uma instituição ou uma rede de relações oferecendo um caminho rápido. Em Os Bons Companheiros, a máfia surge para Henry como uma família mais atraente do que a vida comum. Em O Lobo de Wall Street, o mercado financeiro vira um palco em que Jordan Belfort pode transformar apetite em status.

Scorsese filma esses ambientes com energia. A música, a montagem acelerada, os movimentos de câmera e a narração aproximam o espectador daquele ritmo. Na prática, o diretor permite que a ascensão seja sedutora antes de mostrar o preço. O público não acompanha o personagem de longe. Ele entra no carro, na festa, no restaurante e na sala onde as decisões são tomadas.

É nesse ponto que a construção se diferencia de uma simples história de punição. A ascensão não é apresentada como um erro desde o começo. Ela tem prazer, humor, camaradagem e sensação de pertencimento. O problema está no fato de que o personagem passa a confundir liberdade com ausência de limite.

A linguagem do excesso mostra que o controle já começou a escapar

Quando o protagonista alcança o que queria, Scorsese não encerra a trajetória. Ele aumenta a escala. Mais dinheiro pede uma casa maior, mais poder exige novos aliados e mais prestígio cria a necessidade de ser reconhecido o tempo todo. O personagem já não busca somente uma conquista. Ele passa a proteger uma identidade.

Em Cassino, Sam Rothstein tenta organizar o funcionamento do estabelecimento com precisão, mas Nicky Santoro transforma a força em espetáculo. A tensão entre os dois mostra como o sistema que produz riqueza também abriga comportamentos capazes de destruí-lo. O excesso não vem apenas de uma escolha individual. Ele cresce dentro de uma estrutura que recompensa a imprudência por algum tempo.

  • Escala: a vida do personagem fica cada vez maior, com mais pessoas, dinheiro e riscos envolvidos.
  • Repetição: um comportamento que trouxe resultado passa a ser usado em qualquer situação, mesmo quando deixa de funcionar.
  • Exposição: o protagonista começa a precisar ser visto para confirmar a imagem que criou.
  • Isolamento: quanto mais ele controla o ambiente, menos consegue confiar em quem está ao redor.

Esse conjunto de sinais costuma aparecer antes da queda aberta. Pelo que já vi, Scorsese não precisa anunciar que algo está errado. Basta mostrar a rotina ficando mais extravagante e as relações ficando mais frágeis. O espectador percebe que a vitória deixou de ser uma conquista e virou uma obrigação permanente.

A montagem coloca o espectador dentro da euforia

Um recurso frequente é a montagem que transforma ações rápidas em uma experiência quase hipnótica. Em Os Bons Companheiros, a narração de Henry organiza o mundo do crime como se ele estivesse apresentando uma carreira desejável. A câmera circula, a música conduz e os cortes aceleram a sensação de que tudo está acontecendo no momento certo.

Depois, a mesma linguagem passa a trabalhar contra o personagem. O ritmo se torna confuso, as situações se acumulam e a euforia dá lugar à paranoia. Em uma das sequências mais conhecidas do filme, Henry atravessa uma rotina caótica de entregas, telefonemas e ameaças. A montagem não precisa explicar a deterioração. Ela faz o público sentir a perda de controle.

Para quem estuda cinema ou escreve sobre personagens, essa é uma lição prática: a forma pode acompanhar a psicologia. A câmera não observa a crise de maneira neutra. Ela adota o nervosismo do protagonista e mostra como a mente dele já não consegue separar urgência de perigo.

O protagonista se torna prisioneiro da própria imagem

Scorsese constrói personagens que precisam representar uma versão de si mesmos. Travis Bickle quer ser visto como alguém capaz de limpar a cidade, mas sua visão de mundo vai se tornando cada vez mais distorcida. Jake LaMotta constrói uma identidade baseada na força e trata qualquer sinal de vulnerabilidade como ameaça.

O ponto central não é apenas que eles cometem erros. É que passam a defender o personagem que criaram, mesmo quando esse papel destrói seus vínculos. A imagem pública ganha mais importância do que a pessoa que existia antes dela. Por isso, a queda também é uma perda de linguagem, rotina e pertencimento.

Em O Rei da Comédia, Rupert Pupkin quer ser reconhecido como um grande comediante antes de ter construído uma carreira de fato. O filme trabalha com a distância entre a fantasia e a realidade. Rupert não aceita ocupar uma posição secundária e transforma a necessidade de atenção em uma estratégia cada vez mais invasiva.

As relações pessoais funcionam como termômetro da queda

Na ascensão, os personagens acumulam aliados, admiradores e pessoas interessadas em acompanhar seu crescimento. Na queda, os mesmos vínculos são testados. A família percebe a mudança, os amigos passam a desconfiar e os parceiros deixam de enxergar segurança naquela convivência.

Em Touro Indomável, o ciúme de Jake não fica restrito ao relacionamento. Ele contamina o trabalho, a família e a maneira como o lutador interpreta qualquer conversa. A agressividade que parecia uma ferramenta de sobrevivência passa a definir todas as relações. Quando isso acontece, o personagem já não consegue voltar ao ponto de partida.

Uma maneira útil de analisar esse movimento é observar quem abandona o protagonista e quem permanece. Scorsese usa essas escolhas para revelar as consequências com mais força do que qualquer discurso moral. O personagem pode perder dinheiro em uma cena, mas a perda de confiança costuma ser mais dolorosa e mais difícil de reparar.

A queda não é um acidente, mas o resultado acumulado das escolhas

Uma característica marcante do cinema de Scorsese é a recusa de uma queda totalmente inesperada. Os sinais aparecem antes: a mentira repetida, a traição tratada como procedimento, o abuso normalizado e a incapacidade de ouvir qualquer alerta. O colapso final apenas reúne consequências que já estavam em circulação.

Em O Lobo de Wall Street, Jordan Belfort não cai porque um único excesso acontece. Ele cai porque transforma o excesso em método de trabalho e passa a acreditar que pode contornar qualquer limite. A narrativa acompanha essa escalada com humor e velocidade, mas a estrutura permanece clara. Cada nova conquista aumenta a distância entre o personagem e a realidade.

Ao rever esses filmes, vale observar o momento em que o protagonista deixa de reagir ao ambiente e passa a acreditar que controla tudo. Esse ponto costuma marcar a virada. A partir dali, os aliados são tratados como ferramentas, os riscos parecem menores e as consequências ficam sempre para depois.

Até a forma de assistir ajuda a perceber detalhes. Quem gosta de comparar direção, montagem e atuação pode organizar uma pequena sessão com filmes do diretor, usando um teste IPTV 12 horas para avaliar como diferentes obras trabalham ritmo e construção de personagem. O foco não é apenas acompanhar a trama, mas reparar em como a linguagem muda conforme a segurança do protagonista começa a desaparecer.

O som e a câmera também contam a história da deterioração

Scorsese usa música popular para criar contraste, ironia e memória. Uma canção vibrante pode acompanhar uma cena de violência, enquanto um momento aparentemente banal recebe um tratamento solene. Esse contraste impede uma leitura simples e mostra como os personagens enxergam o próprio mundo.

A câmera também participa da ascensão. Travellings longos, movimentos circulares e enquadramentos que aproximam o público das festas criam uma sensação de acesso privilegiado. Quando a queda chega, o espaço pode parecer apertado, repetitivo ou desorganizado. A encenação deixa de sugerir domínio e passa a destacar confinamento.

Esse trabalho sonoro e visual ajuda a explicar por que os filmes continuam relevantes para quem analisa narrativa. A transformação não está somente nos diálogos. Ela aparece no modo como o personagem ocupa uma sala, atravessa uma rua, olha para os outros e reage ao silêncio.

Como aplicar essa leitura ao analisar qualquer personagem

Não é preciso estudar todos os filmes de Scorsese para usar esse método. Na prática, eu costumo separar a trajetória em etapas e comparar o que muda em cada uma delas. O resultado fica mais preciso quando a análise não se limita ao destino final.

  1. Identifique o desejo: descubra o que o personagem quer conquistar e por que isso importa para ele.
  2. Observe o atalho: veja qual ambiente oferece acesso rápido ao poder, ao dinheiro ou ao reconhecimento.
  3. Mapeie os excessos: anote quando uma qualidade útil, como coragem ou disciplina, passa a funcionar sem limite.
  4. Acompanhe os vínculos: perceba como família, amigos e parceiros respondem à mudança do protagonista.
  5. Encontre a virada: localize a cena em que ele deixa de enxergar os riscos ou passa a desafiar qualquer consequência.
  6. Compare forma e conteúdo: relacione montagem, música, câmera e atuação ao estado psicológico apresentado.

Esse roteiro também ajuda em resenhas e textos sobre outros diretores. Para complementar uma pesquisa sobre narrativas de ascensão, você pode consultar este guia de análise e organizar os pontos antes de escrever. O mais importante é não tratar a queda como um evento isolado, mas como a soma de decisões que o filme apresentou aos poucos.

O que fica depois da queda

Scorsese não encerra todas as histórias com uma reparação clara. Em alguns casos, sobra uma prisão; em outros, uma solidão silenciosa ou uma rotina que continua sem o brilho de antes. Essa escolha evita transformar a narrativa em uma fórmula de punição e mantém a atenção nas marcas deixadas pelo caminho.

O que permanece é a pergunta sobre o limite entre conquistar uma identidade e ser consumido por ela. Os personagens querem controlar a maneira como são vistos, mas terminam presos ao olhar dos outros. Quando o reconhecimento desaparece, resta descobrir se havia alguma pessoa por trás da imagem.

Na prática, é isso que torna tão forte a maneira como Scorsese constrói a ascensão e queda de personagens. Ele começa pelo desejo, mostra a sedução do ambiente, acompanha a transformação em excesso e deixa que as próprias relações revelem o custo. Escolha hoje um filme do diretor, observe uma cena de subida e outra de colapso, e anote o instante em que uma vitória começa a parecer uma armadilha.

Sobre o autor: Coordenacao Editorial

Equipe integrada responsável pela produção e organização de textos com fluidez e coesão editorial.

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